terça-feira, 4 de julho de 2017

3º | A rapariga no autocarro

we heart it


Estava na última fila do autocarro quando um jovem se veio sentar também na parte de trás. Passado alguns minutos ele remexe na mala e tira um livro e começa a lê-lo. Após uns vinte minutos ele carrega no botão e levanta-se para ir andado para a porta e quando reparei ele tinha deixado cair um papel dobrado no chão, mas já não ia a tempo para o chamar se quer. Eu levantei-o para guardar caso um dia voltasse a ver o jovem e não consegui evitar abrir o papel. Desdobrei-o e a letra era minúscula e  tinha sido escrita exatamente a um ano atrás, a data estava escrita no topo do papel e após isso estava o seguinte:


"Querido João, 

antes de ir embora, antes que o cancro me consuma, quero agradecer-te por algo que nunca te agradeci. A uns anos atrás, espero que te lembres, quando eu própria me afastei das pessoas, quando eu mesma me enfiei num poço sem fundo, tu salvaste-me. Tu não me deixaste sozinha. Pela primeira vez, não tive que pedir por companhia, tu ofereceste logo a tua e eu sei que nunca te disse, mas naquele momento foi como se tivesses mandado uma corda para o poço em que eu estava e em todos os intervalos em que não me deixaste sozinha e deixaste de ir com os teus amigos era como se me puxasses sempre um pouco mais, até que eu cheguei ao cimo do poço. 
Mais uma vez, antes de ir embora, antes que o cancro me consuma, quero dizer-te que nunca percebi porque é que só me contaste que gostavas de mim quando só nos restava muito poucos dias juntos. Era medo? Não querias admitir a uma rapariga que tens sentimentos e que te apaixonas? Tinhas medo que desse errado? E a última pergunta, arrependeste-te?
Última vez, antes de ir embora, antes que o cancro me consuma, quero confessar-te que sempre foste tão imprevisível, fazes coisas que ninguém espera, apareces sem aviso prévio, vais embora sem deixar rasto e voltas quando te apetece, sem receios e cheio de coragem. Do fundo do coração, mereces uma rapariga cheia de amor para te dar, cheia de atenção disponível para ti, cheia de energia e um grande sentido de humor. Aposto que essa anda por aí, talvez perdida, talvez indisponível, mas quando for o momento certo, quando tiver que acontecer, ela vai aparecer e tu vais saber. Talvez já a conheças, talvez não e talvez ainda demore, mas descansa, há sete biliões de pessoas e uma delas está destinada a encontrar-te. Agradecida, 

Luísa"
No fim do papel em letras ainda mais minúsculas que as outras todas, com uma letra diferente estava escrito "Já encontrei e és tu e lá em cima volto a te encontrar". Voltei a dobrar o papel e guardei-o na mochila e quando dei por mim, já estava muito longe de casa.

6 comentários:

  1. Tão lindo, adorei ler.
    Beijinhos
    http://virginiaferreira91.blogspot.pt/

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  2. Tão bonito!!
    Espero que me pagues o preço dos lenços depois de ler este texto maravilhoso e também muito triste.

    XOXO
    -Luna
    Lilac Riddle || Enigma Lilás

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